Confissões em um Divã

O verdadeiro esconderijo de meus devaneios

7:56 PM

Cacos

Mais um devaneio de Thaise de Melo |


Mais uma noite eu passei sem dormir e agora a sirene da fábrica toca, são sete da manhã. Sentada aqui eu posso vê-la acordar através da porta de vidro da sacada de seu quarto. Sua camisola de seda alva e desajeitada cobre seu corpo moreno, sonolento e amarrotado, ela passa as mãos pelos cabelos lisos, negros e desgrenhados e então some lentamente, talvez tenha ido ao banheiro ou a cozinha. Odeio quando ela desaparece da sacada, fica aqui comigo o desejo de acompanhá-la, de segui-la, a vontade de estar nela. Será que hoje ela vai encontrar outra ou uma que não seja eu? Então ela reaparece, veste uma calça, que parece jeans vista daqui, e uma blusa branca que contrasta a pele de índia e então desaparece como se fosse para sempre. A mim resta meu quarto, a xícara de café e o desejo. Desejo esse que me toma, vontade absurda de ter o outro corpo sobre o meu corpo, de sentir todos os cheiros, de tocar toda a parte, de beijar todo comprimento.

Lamento não poder segui-la, então me levanto e vou arrumar algumas coisas na cozinha. Agora é minha vez, troco de roupa e vou para o escritório. Da janela do 32° andar de um prédio no centro da cidade eu ainda consigo avistá-la atrás do vitral. O desejo é inconseqüente, inconsciente e irracional, me possui sem pedir e eu me entrego sem lutar. Durante algumas horas faço meu trabalho, e durante várias outras penso nela, e escrevo sobre ela e desenho ela. É ela que eu quero. E pensar que nem nunca troquei uma palavra, que nunca senti o cheiro. É proibido passar do vidro, algo dentro de mim repete. Chega o fim do meu expediente e no trem eu volto pra casa pensando e imaginando e sonhando.

Mas, pior que o amanhecer que a afasta de mim é o anoitecer que nos reúne e malditas as noites em que ela não volta só. Malditos os outros corpos, dedos e línguas que a invadem, malditos os narizes que a cheiram e roubam essas suas essências. Malditos meus olhos que observam os outros corpos em cima do corpo que desejo meu e nessas horas malditos os meus dedos que me tocam desejando o prazer alheio. Maldito o gozo, meu e dela. E novamente amanhece e aquele corpo moreno que nem é tão perfeito e aqueles olhos castanhos e inchados e aqueles cabelos desgrenhados levantam sem saber que há quem os ame e observe e principalmente quem os deseje através daquele vitral santo, santa tela pintada pelo destino e seus pincéis finos. Aquela porta que na verdade é um portal para desejos mórbidos. Eu sei pelo o que ela procura quando volta com aquelas pessoas quaisquer, eu sei que tudo que eu sou, conheço e faço é o que ela procura, porque ela é perfeita pra mim e eu a conheço melhor que qualquer um. Daqui eu sei quando ela chora e quando ela ri, quando realmente tem prazer e quando apenas finge. Mas ela só não sabe que eu sei e sou tudo isso.

Então, novamente anoitece e novamente não durmo. Ela volta se ajeita e dorme. Novamente eu sento e a observo, mas uma das mil noites que vivo esse insano amor de desejo e obsessão, mas hoje ela voltou só, então hoje é dia santo. Abro uma garrafa de uísque para comemorar a vitória insana, o álcool desce doce. E nessa doce madrugada que indica mais uma batalha vencida, eu desço, cambaleando, as escadas e me ponho a andar pela rua de paralelepípedos, tropeço em uma pedra, abro um sorriso, me abaixo e a pego e a seguro firme nas mãos. Volto pelo mesmo caminho que fui, paro em frente ao perfeito vitral, contemplo-o mais uma vez – o meu portal de prazeres – e arremesso a pedra com toda a força que dispunha. O choque da pedra fez um barulho como de um trovão e o vidro estourou em uma chuva de cacos esverdeados. A chuva mais bela e refrescante que eu já vi e senti. Então fiquei parada no meio da rua observando.

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A atualização do mês.
Aprecie cada palavra aqui. =)
Fiquem na paz.

2:11 PM

Especialmente

Mais um devaneio de Thaise de Melo |

Olá, hoje vou começar pelos meus comentários.


Os comentários da última postagem me fizeram pensar e eu tenho que admitir, esse blog é meio melancólico sim, mas isso (provavelmente) se deve ao fato de eu ser uma escritora escrava dos sentimentos, sendo assim só escrevo quando estou triste, irada ou profundamente reflexiva. Uma vez eu li que “felicidade não dá tema de blog” e aqui no Confissões não dá mesmo.
Por fim deixo mais um dos meus textos “mistura de ácido e doce” como disse o André do “Blog do Andrezinho":


ESPECIALMENTE



Naquele dia ele se levantou um pouco antes de sol raiar, sentou na cama, coçou os olhos e jogou os cabelos brancos para traz. Percebeu a escuridão que fazia e fingiu não se importar. Pôs o café para fazer na cafeteira e caçou um livro para ler ou folhear, não importava. Sem encontrar nada que o agradasse foi ao banheiro lavar o rosto como qualquer outro que acorda. Os primeiros raios de sol apareciam e o café ficou pronto. Enquanto isso, ele ainda no banheiro reparava a barba mal feita, os pontos pretos no nariz e o cabelo mais branco, com pontas desiguais e alguma caspa. Resolveu ignorar as imperfeições, aquilo não o incomodava. Ou incomodava e ele fingia não incomodar. Tomou seu café e foi esperar o sol acabar de nascer. Terminou um pouco frustrado, pois o céu nublado não cedeu muito mais luz do que já havia mostrado. Resolveu, então, se levantar daquela poltrona na varanda e se arrumar, aquele era um dia importante! Foi ao guarda-roupa e procurou seu melhor traje. Pois um frack no corpo ainda amassado, uma cartola nos cabelos desgrenhados e uma loção qualquer na barba mal feita. Sentiu-se um rei. Resolveu que iria passear ir a algum parque, quem sabe, afinal aquele era um dia importante. Saiu.

Na rua, as poucas pessoas que saiam para trabalhar, ou que chegavam do trabalho, ou até aquelas que estavam na rua por estar de manhã, tão cedo, viram aquele homem e cada um imaginou um motivo diferente para aquela roupa tão inusitada, mas todos concordaram – mesmo sem dizer uma palavra – aquilo era loucura.

Ela acordou lenta ainda por causa do sono e foi até ao quarto ao lado. A lentidão terminou e o desespero tomou o seu lugar. Vasculhou o guarda-roupa dele. Faltava o velho e empoeirado frack, começou a gritar o nome dele, inútil. Trocou de roupa em absurda velocidade. Correu, apertou o botão para abrir a porta da garagem, ligou o carro e saiu em disparada procurando por ele. Não conseguia se lembrar se havia fechado o portão da garagem ou não. Não era importante no momento. Após rodar quatro quarteirões o encontrou sentado no parque da cidade, com seu frack e um sorriso singelo a observar os pássaros no chão. Ela estacionou o carro e correu na direção dele gritando apavorada: “Papai, papai!” Ele ao ouvir, olhou para ela e sorriu, e como se nada tivesse acontecido a perguntou como estava e dizia que há muito não a via e quanta saudade sentia. Ela o segurando pela mão dizia: “Vamos papai, vamos voltar para casa. Assim o senhor pode vestir roupas mais adequadas para uma quarta-feira e tomar seus remédios.” Ele hesitou e repetia que queria ficar ali, e com aquelas roupas especiais, porque era um dia especial. E ela com a paciência já gasta, falava: “Mas o senhor tem consulta no psiquiatra hoje. Temos que ir papai, se o senhor continuar assim eles vão internar o senhor de vez.” E ele em resposta, ainda sorrindo disse: “Fique aqui comigo, tenho tanta saudade, nós não nos falamos há tanto tempo e hoje é um dia tão especial.” Ela, revirando os olhos dizia pausadamente: “Papai nos vimos ontem à noite e hoje é uma quarta-feira nublada como qualquer outra.” Ele, em tom baixo: “Mas eu sinto saudade e hoje eu vi o sol nascer, hoje é um dia tão especial.”

Ela ficou sem entender, mas resolveu deixar pra lá, afinal na loucura não há razão.

12:54 PM

Acontece

Mais um devaneio de Thaise de Melo |


Que foi? Ele me perguntou com cara de preocupado. To cansado. Respondi com cara de desanimado. De que? Ele com cara de interesse. De brincar de o lindo mundo feliz. To cansado de ver todo mundo fingir que tudo é belo e perfeito e que tudo ta bem. Parece até no jardim de infância “A casinha feliz”. Parece até um painel pintado, todo mundo sorrindo e contente. Mas por traz dessa merda de moldura mal feita e velha só tem madeira podre, poeira, estilhaços e alguns insetos mortos. Até parece que ta tudo certo. Só pra quem não conhece mesmo. Só pra quem num sabe ver. E eu fico lá que nem um idiota, participando daquela peça teatral macabra pra num desapontar ou desfalcar o resto do elenco. Só pra num faltar um sorriso qualquer na moldura. Hoje eu queria morrer. Não se espante meu amigo. Não se escandalize por nada e tão facilmente. Mas hoje é um daqueles dias que eu lamento minhas unhas muito ruídas não serem capazes de furar minhas veias do pescoço. E o fato de não ter em mãos uma faca afiada suficiente pra rasgar as dos braços. Esse cansaço que eu sinto já mata. Esse cansaço de quem não sabe o que quer e está cansado de procurar. Por mim eu mandava tudo pra... pra bem longe saca? Ficaria longe disso. Pra mim basta. Quer saber vou viajar! Pra onde... Ah pra onde eu não sei. Que tal Bariloche? Quem sabe um dia eu volte. Você acha longe? Hoje em dia com essa tal de globalização qualquer lugar é logo ali. É tudo uma coisa só. Um problema só. É tudo igual O mundo é que nega isso. Quer saber vou sair e beber. Eu aqui num vai mudar nada. Eu sei que lá fora também não, mas lá pelo menos eu ajudo. Ajudo sim cara, eu bebo, fico bêbado e esqueço, mas pra isso eu dou dinheiro pro dono do bar, que vai pagar ao cara que fornece que vai pagar um imposto qualquer. Olha que legal eu movimento dinheiro assim, isso deve ajudar em alguma coisa. Eu num sou lunático, só estou tentando imaginar um lado bom de encher a cara, porque todo mundo só pensa na morte. Viu beber tem um lado bom. Respondi com uma cara sarcástica. Vou com você então, pra ajudar o país e o mundo. Ele com um sorriso na cara.


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Hoje é sabado e eu acabei de voltar da escola (é... eu estudo sábado), sentei no computador e me lembrei do meu blog, me inspirei repentinamente e resolvi atualizar.
Esse conto é uma misturinha de drama com comédia, ou algo assim. Ontem foi sexta - dia de bar, hoje é sabado - dia de farrear.

Beijos e Paz.

11:13 PM

Crônica filha da insônia

Mais um devaneio de Thaise de Melo |


Tive mais uma noite de insônia e não tinha nada que me agradasse na TV – engraçadas essas TV’s por assinatura, quando mais se precisa delas elas não possuem nada pra te oferecer. Na verdade não sei se é a TV por assinatura ou eu, tenho andado inquieta e essa madrugada é só o resultado dessa inquietude. Não sei o motivo ao certo, talvez seja um conto que ando escrevendo, mas não consigo o final. Sobre isso me sinto como se tivesse parido pela metade, como se no meio de minhas pernas houvesse uma criança metade no mundo, metade dentro de mim. Ou talvez o motivo seja outro, talvez seja o término, sim, esse me agrega um bom motivo. Outro termino, outro fim, outra insatisfação minha e outra pessoa que odeia me amar. Quer saber, dane-se o motivo, só sei que já são quase cinco da manha e eu aqui como uma coruja escrevendo.
Dessa vez eu não bebi nada alcoólico, apenas peguei dois cigarros, uma caixa de fósforos e um copo de coca-cola, me sentei no degrau mais alto da escada e fui olhar o céu – confesso que me deixou mais entretida que a TV – e fiquei lá, pensando e conversando comigo mesma, por horas. Não tinha mais nada a fazer, afinal agora todos dormem. Eu até já pensei em tomar calmantes para ir fazer o mesmo, mas essa idéia em particular não me agrada. Não sei por que também, mas eu não gosto de calmantes, soníferos ou antidepressivos. Talvez seja porque eu gosto das minhas insônias, das minhas inquietudes e dos meus momentos de quase suicídio. Já tenho tanta coisa que me faz mal e eu não largo, porque largaria essas? Essas ao menos fazem a minha alma chorar, gritar, se rasgar, e isso me faz tão bem. Reparei uma coisa peculiar outro dia: eu sempre acordo bem quando choro antes de dormir, parece que acordo de alma lavada e espírito limpo.
Sobre lágrimas, bem já faz algum tempo, mas eu fiz um acordo comigo: não prenderei nunca mais uma lágrima, não importa o motivo, lugar ou companhia. Eu descobri que a lágrima presa dói mais que qualquer explicação a ser dada sobre a lágrima que escorre.
E fim, o sol está nascendo, e esse é um dos melhores programas que passa no céu.

6:21 PM

Com Caio Fernando

Mais um devaneio de Thaise de Melo |

“Escrever é enfiar um dedo na garganta”. Estou com essa frase de Caio Fernando Abreu na cabeça. Martelando sem parar. Vomitar. Por tudo pra fora, tudo que faz mal, que é bom, que serve, que não serve. Por pra fora á força tudo que deveria ficar dentro, tudo que deveria ficar escondido, encoberto, intocado. Trazer a tona o que nunca deveria ver a luz, tão pouco as páginas. Ficar em cólicas e ver tudo ir descarga a baixo. Deixar tudo ir mesmo que não se queira. Ver o que não se quer ver. Ninguém deveria fazer isso, é perigoso, dolorido e viciante. É necessário. Às vezes, só passa depois de que tudo vai. Que tudo sai. A náusea só deixa o corpo quando se expurga o que incomoda, o que machuca ou o que deu prazer.


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Olá pessoas,
Estou há um tempo sem aparecer, eu sei. Foi pela mais pura preguiça, admito, pois até tenho escrito algumas coisas... Mas agora estou aqui.
Como foi a passagem de ano? Espero que boa. Porque a minha foi!
Bem a passagem... O ano começou com coisas novas, tipo: Agora estou usando óculos para ficar no computar, para ler, ver tv e essas coisas e houve o fim de mais um amor... Mas essas coisas acontecem. E claro a maldita mudança ortográfica, mas isso já são outros quinhentos.
E vejam só que pessoa mais desnaturada, nem coloquei nada aqui no aniversário de 1 ano do blog. Sim o Confissões fez 1 ano no dia 08/01/2009. Uhuul! Mas de presente tá ae o novo layout.
E o texto bem, já escrevi há um tempo, a frase eu retirei do livro 'morangos mofados' de Caio Fernando Abreu, que por sinal é um escritor incrível, ele virou um vício.


É só.
Beijos e paz.